quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Limpeza
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
DEUS©
Você escutou isso?
Sim, está patenteado.
Todos os direitos são
exclusivos.
Já tinham pedido usucapião.
Coitado, nem deixaram que se manifestasse
seu tamanho desapontamento,
pois quem devia
dele ser instrumento
se vê dono e seu patrão.
O contrato? São muitos, muitos mesmo.
Na verdade, foi sequestro.
De resto, para o mínimo benefício
nos exigem sacrifício.
O dízimo só concede
a regalia de pedir.
Para obter, tem que multiplicar
a fé pelo ofertório.
Nada vira pão, mas,
na conta do bispo, já é mais de milhão.
que só não é mais
que a condenação
de humanistas ateus liberais.
Para esses,
o caldo de satanás.
Amarrado, DEUS©
não pode agir
além do limite estreitado.
Antes palavra,
hoje vive amordaçado,
não obstante
lhe queiram e empenhem tanta atenção.
No livro ele se fazia mais sagaz,
mas tem caído em cada armadilha...
Nem parece o mesmo desbocado
a desclassificar a gente mesquinha.
Hoje ele fala muito em dinheiro.
E de dinheiro travava rinha homérica,
mas para desfazer, não para juntar.
Até o aprendiz com o mestre
viram os príncipes tudo deixarem
na soleira do sétimo círculo.
Se nem o inferno tolera o ouro,
por que vale tanto pro céu?
De fato, é apenas papel,
ou nem isso.
"Doai seus bens materiais,
assim tereis sempre mais!".
Bem se vê na Mercedez,
no apartamento bacana
e nos restaurantes grã-finos
onde os filhos do bispo
jantam toda a semana
o pedaço mais sangrento
das minhas dívidas plurianuais.
DEUS© gosta de violência
se especializou em atacar
as [in]consciências frágeis,
no entanto imodestas,
a ponto de dizerem que,
parcial, até gol marca
nas pelejas de futebol.
Ele ou um dos seus donos
fanaticamente sem graça
pelo favor dEle e preferência injustificada.
A graça, é que DEUS© era um capone:
forneceu bebida a quem desanimava da festa.
Hoje não dança mais nem música pode ele ouvir.
Porque os mantras dos seus orfeões
não alcançam tal dignidade.
Como se domesticou!
Como no Circo da Fé,
repete graças ao
publiquete dominical,
revelando aos cegos
sua míope visão
da tendência Universal.
Agora, DEUS©, pela voragem atual,
escarnecido e destituído de sua antiga majestade,
cultua o bicho humano e idolatra
a bisparada selvagem.
Postado por Silvio Lourenço às 22:15 3 comentários
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quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Terra rasgada
Gente briguenta o véio Amâncio.
sábado, 25 de julho de 2009
Caderno de receita
sábado, 23 de maio de 2009
Breviário Noturno
I
Morcegos mexem mandíbulas
no sótão
guincham de gozo
II
Paredes desbotam
pombas desbotam
pombos jamais
no desbotar do dia
botas batem nas ruas batidas: téqui-téqui-téqui-téqui
alguém corre a bater o cartão
o poeta bate letras olivetti
palavras desbotam
III
Não
e nada aqui
tendo o nada
nada tenho
longe amigos
a mente amola o longe
A memória é lata de lixo
melhor esvaziar que vira moléstia
mil voltas,
salto linhas...
De novo nadas
IV
A solidão noturna é forçadaguinchos de morcegos,
cantos de galos,
gritos de gatos,
arrulhos de pombos
são nós na noite
e nada nem coisa nenhuma se faz natural
V
Esqueço calças
rezo preces esquisitas
parecem guizos de cascavel

Escrevo novo apocalipse
crivado de lapsos
apoucado de símbolos
Aqueço e enxugo gelo
suco seco
o sol separa as noites
Pétalas de uma flor
pretas, pratas, lilases
fios tinturados nas faces
Duas moedas mínimasdois cêntimos apenas
Deus deu o troco e ficou
O menino desenhando o alfabeto
as letras crescem
criam peixes e meninos
A máquina faz barulho
o aparelho do silêncio
está com defeito
Pílulas, papéis, problemas
passas secas ao sol
nos cabelos passa pente de osso
Pássaro poetando no ar
peixe poetando no mar
uma pedra partiu o poeta
VI

Exílio da noite – sol
exílio da solidão – vênus
exílio da flor – pedra
exílio do tempo – amanhã
exílio da alegria – perda
exílio da velhice – infância
exílio da humanidade – deus
exílio de mim – outro
VII
A moça tem uma boca
a boca da moça tem dentes
massageiam mensagens
musgadas
VIII
O amanhecer já é incógnita
cada aurora engana sua noite
nas frinchas se enfaixam feixes iluminados
as ruas são suas ruínas
as cirandas infantis tornam-se sérias
carros rangem de carroças
mercancias desinteressam
num castelo penitenciário
os condenados glosam poemas
como príncipes devaneiam
o mato meteu a morada ocultasuas pontas causam cócegas
nas portas
IX
Água de chuva fez suco de bosta de morcegose acumula no assoalho
lagartixas brancas brecam velhas moscas verdes
Papéis na mesa e girassóis fora
palavras não penetram os papéis às vezes
então colemos palavras lisas
X
O tempo se tapou
nimbos são tampas
devolvem rios em gotas
bátegas escorrem azuladas na vidraça
retratam tipos post-mortem
surgem epitáfios
poemas de remorsos
pústulas mapeiam e adensam paredes da última morada
XI
Vênus vigia a avenidatransitam estrelas
na trilha cinzelada do caos
estrelas se caiaram de cinzas
Vênus se vê irritada
acende-se no cinza
XII
O pavio queimou inteiro
esqueçam o que se foi
esqueçam a casa
esqueçam a cama
esqueçam a criança
e o estado fetal
A aurora corrompeu a madrugada infensaesqueçam a noite
esqueçam morangos
esqueçam seios nas mãos
esqueçam cantos
e lençóis
A chuva despediu-se da moça
esqueçam a arca
esqueçam os primatas
esqueçam o plâncton
esqueçam o sopro
e o barro
As imagens também se esfarelamesqueçam suas flores
esqueçam suas pedras
esqueçam suas borboletas
esqueçam suas ilhas
até que a dor resgate nossas lembranças
XIII
Negaram o existir da natureza
busco imagens na própria ignorância
realizo pássaros que amamentam seus filhotes
meus sapos voam solenemente
ancorados em altos telhados
contemplam os girassóis azuis
no dia que o céu tingiu-se de verde
o mar amarelou-se de medo
e os peixes pescavam homens
Minha sopa tem gengivas brancas
e madeixas de medusa
despréstimos da ilusão

Os homens querem conhecer como árvores
arvoram ignorância por saber
árvores riem e roncam ao vento
murmurador
de nossos devaneios às anciãs silvestres
elas sabem coisas remotas
seus enigmas confundem
sua dor é imensa
dor é uma coisa de quem não se presta a morrer
XIV
Faltaram feições
ficou a frieza férrea
a feiúra a fenecer
um festim de facas
Essas facas cegas
ao tempo resistem
as noites cortam os dias
retalhando-os em lanços

Os perfumes das pétalas
pruridos ficaram
nas pisadas descalços
sangram os pés nos espinhos
As moças não sabem as danças
músicas moram maçantes
doces regalam velhas moscas
que no festim fitam as mesmas máscaras
FIM do breviário.
sexta-feira, 24 de abril de 2009
Amarelinha

Tem céu,
tem também inferno.
A pedrinha,
lançada com fé
procura o céu
mas uma geografia perversa (parece que o Coisa-Ruim trama isso)
faz o inferno alargar
e por um largo pequeníssimo
cai o sortilégio
um pouco pra lá de onde deveria.
Aí a gente tem que pular
os pedaços marcados
coisas lindas e desejos gozosos
quedam ao lado.
Há uma pedra,
sim,
que a lançadeira tem por dever de obrigação recuperar.
O poema parece amarelinha
se jogar a palavra uma vez ou duas
longe do céu desejado, encanto não há.
Palavra-pedrinha,
o poeta tem fé que ela cumpra uma sorte,
se o poema não é de todo agrado,
pula o de que não goste,
lê só o desejado.
Postado por Silvio Lourenço às 08:35 1 comentários
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